segunda-feira, 31 de março de 2014


                       A recompensa

                  Invejado ninguém foi como tu,
                  Luís Vaz de Camões, mesmo apesar
                  de teu destino ser bastante cru
                  e tua vida um permanente azar.

                  Mas tinhas o que os outros não tiveram,
                  engenho a rodos, farta inspiração,
                  virtudes essas que te mereceram
                  o máximo respeito da nação.

                  A tua verdadeira recompensa
foi teres-te mostrado alto e distante
                  da mediocridade que não pensa.

                  A inveja foi teu prémio: perante isso,
                  teus críticos de espírito rasante
                  acabariam… por levar sumiço!


                       João de Castro Nunes 

domingo, 30 de março de 2014


                     Fata viam inveniunt

A sorte que nos persegue,
                  seja qual for o seu curso,
                  ninguém jamais a consegue
                  desviar do seu percurso.

                  A ventura e a desventura
                  vêm pelo mesmo caminho:
                  a segunda, a que mais dura,
                  na primeira faz seu ninho.

                  Nada adianta mudar
                  de vida, estado ou lugar
                  que ela mantém seu traçado.

                  Aquilo que tem de ser
por assim Deus o querer
não pode ser… alterado!


  João de Castro Nunes                 

sábado, 29 de março de 2014

            Meu canto açucarado

         Andam meus versos, límpidos, selectos,
         de mãos em mãos por terras do Brasil
         onde poucos conhecem meu perfil
         mas com prazer devoram meus sonetos.

         Na boca das mulheres brasileiras
         ganham muito maior sonoridade,
         uma espantosa musicalidade,
         pronunciando as sílabas inteiras.

         Estão-me a pôr ao lado ou mesmo acima
         de Vinicius, Bandeira, de Drumond
         e muitos outros mais da minha estima.

         Sob o pendão da pós-modernidade
         canto o que é nobre, puro, belo e bom
         ou tenha traço algum de santidade!


                  João de Castro Nunes

sexta-feira, 28 de março de 2014

“Horas breves do meu contentamento”

         Os momentos de prazer
         que nos concede a existência
         passam depressa, a correr,
         mais não sendo que aparência.

        Não vale a pena querer
        oferecer resistência
        pois assim terá de ser
        por obra da providência.

       O mal em contrapartida
       como rocha em terra dura
       tem por norma longa vida.

      Tudo aliás se conjura
      para apressar a corrida
     da passageira… ventura!


      João de Castro Nunes
                  Paladares

               Tem o poeta o direito
                a escrever omo quiser;                                
                o que não deve é querer
                verso algum fazer sem jeito.

                Todo o verso, para o ser,
                além de ter um conceito,
                deve causar um efeito
                que a prosa não pode ter.

                 Isto é mais do que evidente
                 sem qualquer necessidade
                 de alguém ser inteligente.

                 Faça contudo o poeta
                 em nome da liberdade
                 o que lhe der na veneta!


                     João de Castro Nunes

terça-feira, 25 de março de 2014

       Ante um seixo rolado


Um simples seixo rolado
         no leito de uma ribeira
         pode levar-nos à beira
         do mais remoto passado.

         Em sentido figurado,
         ou seja, à sua maneira,
         ele diz que é passageira
         a vida de cada estado.

         Em termos de poesia,
         havendo imaginação,
         quanta coisa se diria

         como simbólica imagem
         de que em toda a criação
         tudo muda de roupagem!


            João de Castro Nunes
                          
                        Aurelius Polion

                Era um soldado egípcio pelo berço
                mas cidadão romano de adopção
                incorporado numa legião
               do exército mais firme do universo.

               Estava na Panónia Inferior
               a quatro mil quilómetros de casa
               provavelmente de patente rasa
               mas sem dúvida alguma cumpridor.

              Em carta num papiro redigida
              e aos seus familiares dirigida
             dava largas àquele sentimento

             que saudade se chama e a que aludia,
             não se passando mês, semana ou dia
             que não lhe atormentasse o pensamento!

                         João de Castro Nunes