sábado, 3 de março de 2012


                                Rir à socapa


                   Que um senador romano não se risse
                   por ser contrário à sua gravidade,
piamente acredito, ainda que ouvisse
um dito da maior alacridade.


Mas que Jesus nunca se houvesse rido
em toda a sua vida humanizada,
essa, a meu ver, não faz nenhum sentido
nem me merece crédito… por nada.


Como é que não havia de se rir
entre as crianças que, para o ouvir,
à sua volta, às vezes, se juntavam?


Estou a vê-lo rir-se intimamente
dos fariseus que lhe faziam frente
e, confundidos, dele se afastavam!


           João de Castro Nunes

         

sexta-feira, 2 de março de 2012


                        “As pedras e as palavras”


                   As pedras, os calhaus que enchem os montes,
                   são, por assim dizer, os alfarrábios
                   que constituem, para certos sábios,
sobre a história da terra as suas fontes.


 São livros de uma imensa biblioteca
em caractéres que nem toda a gente
consegue soletrar minimamente
numa leitura de expressão correcta.


Já para os cientistas na matéria
favas contadas são sua leitura
numa interpretação segura e séria.


Comprazem-se, além disso, a folhear
essa peculiar… literatura
como um epicurista ante um manjar!


            João de Castro Nunes





                                Trastes velhos


                   Tenho uma colecção de antiguidades
                   que em grande parte dos meus pais herdei
                   e que em diversas oportunidades
                   dia após dia aos poucos aumentei.


                   Em cada região por onde andei,
                   desde as pequenas vilas às cidades,
                   a pé, de carro, interrogando a grei,
                   obtive uma porção de raridades.


                   Móveis antigos, livros, pergaminhos,
                   armas, brasões, damascos e arminhos,
                   faianças, porcelanas, santos velhos


                   dos mais variados sítios e concelhos,
                   não só me cercam de arte e poesia
                   como também me fazem companhia!


                              João de Castro Nunes


                                      

                                    
                               Vestir de arminho


                            Se tua roupa eu escolher pudesse
desde o tecido à sua confecção,
olha que, desse lá por onde desse,
havia de gastar um dinheirão!


De arminho te vestia do mais puro,
do mais branquinho, sem nenhum defeito,
sem mancha alguma, sem um ponto escuro,
como é o coração que tens no peito.


Se acaso o não houvesse no mercado
por se tratar de um animal guardado
para o comprido manto das rainhas,


daí não vinha ao mundo qualquer mal
porque no fundo de ti mesmo tinhas
a imaculada cor… desse animal!


                                    João de Castro Nunes





                   “Em prol de Aristóteles”


                   Em tradução vernácula e feliz
                   de Aquilino Ribeiro, apareceu
                   a tese que no Estudo de Paris
                   António de Gouveia defendeu.


                   O célebre humanista português
                   de vencida levou seus contendores
                   que em número maior, por sua vez,
                   eram da tese oposta defensores.


                   Venceu Gouveia em prol do seu critério
                   de se manter na Universidade
                   o ensino de Aristóteles… a sério.


                   O que, porém, mais belo denomino
                   é desde logo, em nome da verdade,
                   o soberbo prefácio de Aquilino!


                            João de Castro Nunes
                    

                                 “Arganilite”


                   Vem do fundo dos tempos, se calhar,
                   de acordo com a sua tradição,
                   a firme e arraigada devoção
                   da gente de Arganil pelo seu lar.


                   À falta de melhor para expressar
                   essa espécie de atávica paixão,
                   atrevo-me a propor a locução
                   de “arganilite”… sem a registar.


                   Tem ar de ser moléstia que se pega,
                   não existindo propriamente cura
                   seja qual for a droga que se emprega.


                   Por mim o digo por experiência,
                   pois a verdade é que ainda nesta altura
                  lá tenho registada a residência!


                               João de Castro Nunes

                                   Árduas veredas


                        Fazer uns versos não é ser Poeta:
                   a fim de merecer este estatuto
                   é necessário, além de ser asceta,
                   ter um carácter livre e impoluto.


                   É preciso ser puro de intenções,
                   ter a alma aberta para ouvir estrelas,
                   a mente limpa de devassidões,
                   valor para arrostar com as procelas.


                   É indispensável ter um coração
                   capaz de amar, durante a vida inteira,
                   uma mulher da nossa devoção.


                   Ser-se Poeta, sê-lo de verdade,
                   implica humanamente ter craveira
                   e ser um candidato à santidade!


                               João de Castro Nunes