terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


                                A mácula do
    Padre António Vieira


        “Imperador da língua portuguesa”,
                   Camões em prosa sem nenhum favor,
                   não posso perdoar-te a ligeireza
                   de haveres sido um baixo delator.


                   Abrindo-se contigo em confidência
                   a freira Inés Juana de la Cruz,
                   das letras mexicanas eminência,
                   acerca das “finezas” de Jesus,


                   à Santa Inquisição a delataste
                   por em correspondência, que entregaste,
                   Sóror Juana em “erros” incorrer.


                   Por ti denunciada, o seu castigo,
                   por em má hora se expandir contigo,
                   foi nunca mais poder… voltar a ler!


                              João de Castro Nunes 

                                    A diferença

                                      Ao Prof. A. Carvalho Homem


                   Toda a razão lhe assiste, sem favor,
                   quando sugere que frequentemente
                   a História se repete, Professor,
                   pois isso é muitas vezes evidente.


                   Basta pôr em confronto a situação
                   política de agora, de hoje em dia,
                   com a que se vivia na nação
                   nas convulsões finais da monarquia.


                   Então, de tal maneira era o desnorte
                   que não pôde vingar por pura inércia
                   a Liga Patriótica do Norte.


                   Estando fora, pois, de controvérsia
                   essa ilação, agrava o nosso mal
                   a falta de um Antero de Quental!


                               João de Castro Nunes
                   

                             A desforra


                   O Zé-povinho somos todos nós,
                   que pagamos impostos sem bufar,
                   ou seja, sem poder erguer a voz
                   e contra esta pandilha protestar!


                   A albarda carregamos sem remédio,
                   seja qual for o dono do poder:
                   uma desgraça a nossa vida, um tédio,
uma total ausência de prazer!


Querem que eu seja estúpido, iletrado,
de todos e por tudo apanho e levo
somente por dizer o que não devo.


Este é o zé-povinho, sempre aflito,
besta de carga, cujo desagrado
apenas se traduz pelo… manguito!


            João de Castro Nunes


                  


                   

                                À descarada


                   É mais rara a vergonha autenticada
na cara dos políticos de agora
que a trufa negra apenas reservada
a quem tem fundos para deitar fora.
.

Para levarem a água às suas leiras
mentem com quantos dentes têm na boca,
perdendo sem pudor as estribeiras
se em suas mordomias alguém toca.


Impantes de prosápia e de opulência,
acabam por não ter qualquer  decência
ante a miséria que lhes mora ao lado.


Por este andar, a prosseguir assim,
é de antever que o povo esfomeado
os obrigue a baixar do trampolim!


          João de Castro Nunes




                   

                             A contragosto


                   Nós, Galileu, apenas conhecemos
                   uma parte da história, trapos dela,
                   não nos faltando casos em que temos
uma versão contrária ou paralela.


Isto te digo, porque às vezes penso
na angústia dos juízes que tiveram,
sob ocultas pressões, de ânimo tenso,
de te inquirir do jeito que fizeram.


Quantas daquelas pardas eminências
gostariam de estar no teu lugar
a defender as tuas evidências!


Mas as razões da fé, do cargo, tudo,
pesaram mais que a tentação de olhar
para as estrelas… pelo teu canudo!


          João de Castro Nunes

                         A única excepção


                   O Poeta em nenhum caso pode ser
                   uma vulgar pessoa acomodada
                   numa existência caracterizada
                   pela abstenção de um ideal qualquer!


                   Tem de saber sonhar, sonhar em grande
                   rumo às estrelas ou mais longe até,
                   sem que jamais o seu fervor se abrande
                   ou perca força a luz da sua fé.

                  
Exceptuando a prática política,
                   incompatível com a Poesia,
                   por carecer de consciência crítica,


                   qualquer ocupação se compagina
com sua criativa fantasia
mesmo jornais vendendo numa esquina!


            João de Castro Nunes

                             Auto-avaliação


                   Não me compete, desde logo, a mim
                   dos versos meus fazer a apologia,
                   o que não me coíbe, mesmo assim,
                   de lhes reconhecer a... a primazia.


Embora longe ainda de Camões,
de Antero e de Bocage no soneto,
afirmam-se, por múltiplas razões,
entre os de tratamento mais correcto.


Exalto neles, mais que coisa alguma,
o conjugal amor entre os esposos,
envolto sempre em desdenhosa bruma.


Pelo seu ritmo e harmónico andamento,
                   acrisolado e fundo sentimento,
atrás não ficarei dos mais famosos!


          João de Castro Nunes