domingo, 26 de fevereiro de 2012


                           A nossa imagem


                De braço dado ou mãos entrelaçadas
                   a vida se nos foi depressa embora:
                   seis décadas de amor abençoadas
                   por oito filhos menos um… agora.


                   Como era teu desejo e meu também,
                   antes dos meus teus dedos esfriaram,
                   partindo antes de mim para o além
                   onde com Deus as almas se deparam.


                   Quando por fim chegar a ocasião
                   de se esfriar também meu coração
                   não morrerá de todo a nossa imagem.


                   As mãos nas mãos sem fundo nem paisagem
                   independentemente do lugar
                   assim nos queiram todos recordar!


                               João de Castro Nunes

                             A minha dor


                   Quando chegaste, amor, ao paraíso,
                   anjos e santos se renderam todos
                   à afável expressão do teu sorriso,
                   aos teus gentis e amoráveis modos.


                   Disso estou certo e por essa razão,
                   além de tranquilo e descansado,
                   não me domina a preocupação
                   de procurar saber do teu estado.


                   Sei que estás bem, cercada de atenções
                   pela tua invulgar capacidade
                   de sensibilizar os corações.


                   O que me faz sofrer de forma atroz
                   é simplesmente a impossibilidade
                   de te falar e ouvir a tua voz!


                           João de Castro Nunes

                            “Não vou por aí”


                   Se a metáfora fosse só por si
                   a própria poesia, desde logo
                   com base neste género de jogo,
poetas não faltavam por aí!


Quantas coisas se dizem sem sentido:
cabelos de água, espelhos de cetim,
rosas de neve e sonhos de marfim,
                   a criação do mundo… em diferido!


                   Belíssimo! os críticos diriam:
                   versos desta craveira mereciam
                   ser postos em redoma ou cristaleira!


                   Os meus, porém, não são desta maneira:
são de índole diversa, tendo em vista
a limpidez do espírito humanista!


           João de Castro Nunes

                                 Feliz por dar




                   Mesmo que o Estado assuma a obrigação
                   de prestar assistência social
                   a todo o indigente cidadão,
                   seja qual for a causa do seu mal,


                   isso não tira necessariamente
                   a que haja outro processo de assistência,
                   até por vezes mais eficiente
                   como o dos órgãos de beneficência.


De todas as maneiras a mais nobre
sem dúvida é, porém, para o meu gosto,
a que na rua a mão estende ao pobre.


Conforme se notava no seu rosto,
o facto de ela ser muito esmoler
sempre feliz tornou… minha mulher!


         João de Castro Nunes


                            

                                  Pluralidade


                   Génios… seja qual for o seu sentido
                   ou, por outras palavras, a “noção”,
                   cada um de nós possui, nesta questão,
                   o seu ponto de vista… preferido.


                   Não tem de haver apenas dois ou três,
                   ninguém tem monopólio nem patente,
                   Deus é que sabe, embora obviamente
                   não andem por aí aos pontapés.


                   De bruços sobre o chão, como quem reza,
                   faça arabicamente as suas vénias
                   ao génio singular… que tanto preza.


                   Seja muito feliz, mas não pretenda
                   negar aos outros um lugar na tenda:
                  que as rosas não enjeitem as gardénias!


                               João de Castro Nunes

                               A recompensa


                    Senhora dona morte, amiga minha,
                   duando a hora chegar, inadiável,
                   de com a guilhotina afiadinha
                   a vida me tirares, é provável


                   que já me encontres confessado e tudo
para te acompanhar ante o juiz
que vai julgar-me sem qualquer escudo
para me inocentar de quanto fiz.


Não tenho medo algum, fica sabendo
de te encarar de frente ou de soslaio
por mais que teu aspecto seja horrendo.


Em todo o caso, guardo na carteira
uma nota de mil para, certeira,
agires mais depressa do que um raio!


          João de Castro Nunes
                   

                            A cor do céu


                   O céu não é inutilmente azul:
se Deus assim o fez, foi certamente
para nos envolver de norte a sul
num halo de safira transparente.


Podia tê-lo feito de outra cor,
verde, cinzento, roxo ou encarnado,
mas ao fazê-lo assim Nosso Senhor
antes do mais em nós terá pensado.


Quis esconder-se por detrás do sonho
que nos inspira o azul do firmamento,
a mesma cor dos versos que componho.


Azul é a cor da condição divina,
a cor que mais nos fala ao sentimento
e mais que qualquer outra nos fascina!


            João de Castro Nunes