domingo, 29 de janeiro de 2012

Vestido de noiva

Teu vestido de noiva está guardado
religiosamente num armário
que funciona como relicário
dos teus pertences, muito bem fechado.


É de puro cetim aveludado
com um toque de seda extraordinário
que embora sendo já sexagenário
ainda se conserva em bom estado.


Está guardado para quando for
o casamento feito por amor
da primeira bisneta que tivemos.


Tem o teu corpo, tem o teu feitio,
o teu donaire, formosura e brio,
a Maria do Mar, a quem o demos!

João de Castro Nunes

"Vida da vida"

Prof. A. Carvalho Homem

Se em plena Inquisição ambos os dois
tivéssemos vivido, Professor,
teríamos ardido como heróis
num público braseiro assustador.

Reabilitados hoje, com certeza,
o crime contra nós então julgado
teria sido amar a Natureza
em cada ser ou coisa ao nosso lado.

Em tudo vejo Deus, especialmente,
como Vossa Mercê diz muito bem,
no que de mais excelso tem a gente,

ou seja, nas Mulheres, que eu também,
de modo singelíssimo e sincero,
a sua melhor obra… considero!

João de Castro Nunes

sábado, 28 de janeiro de 2012

Um Rei entre estudantes

Discreto, culto, estudioso e bom,
é assim que o vejo, ouvindo as prelecções
de Alexandre Herculano, cujo dom
de historiador lhe prende as atenções.

De resto, entre o cuidado de reinar
de acordo com a sua consciência
sem a Constituição desrespeitar,
passou sua brevíssima existência.

Sua esposa adorou, Dona Estefânea,
que tão cedo o deixou, por quem nutria
uma afeição que a todos comovia.

Que lindo foi, na terra das tricanas,
ouvir dos estudantes, espontânea,
a grita de académicos hossanas!

João de Castro Nunes
Noites citadinas com
Vergílio Ferreira
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À noite, as nossas vilas e cidades
são taciturnas como um cemitério,
envolvendo-as a todas um mistério
que lhes advém do fundo das idades.

É mais ou menos isto que pretende
dizer na sua prosa depurada
o autor beirão da aldeia que arruinada
aos pés da serra hermínica se estende.

Tudo à noite nos fala de um passado
que no tempo parou, mas de algum modo
dentro de nós perdura humanizado.

Ah! quem pudesse desvendar de todo
a alma das terras quando à noite as vemos
e suas ruas mortas percorremos!

João de Castro Nunes

Visita real

No centenário da visita de D. Carlos a Arganil

Ainda em Arganil há pouco havia,
senhoras sobretudo, já de idade,
quem se lembrasse da festividade
em honra do Monarca e companhia.

Eram então meninas… deslumbradas
com as feições do Príncipe Real
que a todas acenava, por igual,
ao vê-las das janelas debruçadas.

Nas escolas primárias pernoitaram
que os autarcas da vila decoraram
com ricos móveis vindos do Mosteiro.

Foi o adeus às Beiras… derradeiro:
em plena capital, meses depois,
assassinaram brutalmente os dois!

João de Castro Nunes

Versatilidade

Não sou positivista: não aceito
que os povos obedeçam cegamente
a um código de regras imanente,
ao qual o ser humano está sujeito.

Na vida colectiva das nações
é tudo imprevisível, dependendo
de circunstâncias várias, que vão tendo
as mais diversas manifestações.

Nega a realidade a teoria,
surgindo de relance a monarquia
na altura em que a república se espera.

E, vice-versa, observa-se o contrário,
assim como nem sempre ao calendário
se ajusta com rigor a primavera!

João de Castro Nunes

"Trago-te na minha vida"

Vítor Matos e Sá

Comigo a trago ainda antes de eu nascer:
seria eu pó de estrela ou coisa assim
e já prevendo o que ia acontecer
Deus a terá pensado para mim.

Desde o primeiro instante em que eu a vi,
toda “purinha” como a luz da aurora,
olhos nos olhos, a reconheci
imediatamente, sem demora.

Hoje que ela voltou ao paraíso
onde, se não for antes, penso vê-la
no prometido dia do juízo,

continuo em espírito a trazê-la
dentro de mim nos filhos que me deu
e prova são de que ela não morreu!

João de Castro Nunes