sábado, 28 de janeiro de 2012

Vale o que vale

Para um Amigo brasileiro

A minha poesia não precisa
de discutíveis láureas académicas
nem de ser alvo de questões polémicas
por ser ou não daquela ou desta guisa.

Vale por si, quer se concorde ou não,
pela autenticidade que possui,
o que, mais do que nada, contribui
para lhe dar geral aceitação.

Ao que suponho, basta para o ver
dar-se ao trabalho de escutar ou ler,
sem preconceito algum na sua mente,

qualquer soneto meu, cujo andamento
se rege pelas leis do firmamento
que apenas o Poeta infere e sente!

João de Castro Nunes

Auto-confiança

Todos os dias Portugal desperta
com a entranhada e mítica ilusão
de ser a hora prometida e certa
de estar de volta… D. Sebastião.

Todas as noites Portugal se deita
após mais uma atroz desilusão,
que logo vence e novamente aceita
que está no mito a sua salvação.

Há que pôr termo a este despautério
e recobrar nossa auto-confiança
desfeita em névoa pelo Rei-criança:

que volte, pois, o Rei-menino, já,
neste serão, na próxima manhã,
que venha pronto, mas que seja a sério!

João de Castro Nunes

Valeu por todas!

Esta homenagem que eu não esperava
e que agradeço, muito comovido,
vale por todas de que se falava,
mas sempre recusadas me têm sido!

A verdade, porém, é que no fundo
a culpa é toda minha, pois o certo
é que talvez por um desdém profundo
nunca a poder algum me cheguei perto.

Sempre me quis assim conforme sou,
avesso desde logo a sujeições
honras visando e condecorações.

Não me são gratas, mas por excepção
esta me encheu de gáudio o coração
e para meu governo me bastou!

João de Castro Nunes

Veleidades

Filho de antiquários afamados,
coevos de Barjona e de Junqueiro,
nasci num berço de ouro verdadeiro
de príncipes há muito embalsamados.

Cresci por entre arcazes brasonados
de casas nobres mas que sem dinheiro
tudo vendiam para ao usureiro
irem pagando… juros atrasados.

Daí meu gosto pelas velharias
que foram a paixão da minha vida
e me inspiraram tantas poesias!

Cercado de relíquias de solar,
eu me supunha, de alma convencida,
um conde em algum reino por achar!

João de Castro Nunes

Última dádiva

Minha sexta bisneta nasceu linda
como os anjos do céu, só lhe faltando
as asas para o ser, mas tendo ainda
o seu sorriso azul de quando em quando.

Alegria respira de feliz
no pequenino berço que a encerra,
não se importando, em termos de país,
de o céu haver trocado pela terra.

Nunca vi criancinha tão bonita
com seis meses apenas e feições
de mulherzinha já… sem decepções.

Naquele doce olhar com que me fita
vislumbro Deus que, sem eu merecer,
me quis uma vez mais favorecer!

João de Castro Nunes


Coimbra, 19 de Dezembro de 2010

"Les uns et les autres"

(Carta de Veiga Simões a Oliveira Salazar)

Hoje, Excelência, o Fuhrer recebeu
o corpo diplomático, do qual
me destaquei como é habitual
sempre que nestes actos estou eu.

O Fuhrer um a um cumprimentando
distantemente, sem fitar ninguém,
por todos apressado foi passando
e só na minha frente se detém.

Na sua comprimindo a minha mão,
fez-me uma calorosa saudação
que francamente me deixou feliz.

Saiba Vossa Excelência que lho digo,
não pelo caso se passar comigo,
mas por dizer respeito ao meu país!

João de Castro Nunes

A tempo e hora

Uma hora existe sempre para tudo:
uma hora para César exaltar,
outra para na cúria o apunhalar,
desprevenido… sem qualquer escudo.

Hora de sim dizer ou dizer não,
conforme as circunstâncias determinem
e os augurais presságios nos ensinem
qual deva ser a nossa direcção.

Sem D. João Segundo estar ao leme,
insegura se sente a marinhagem
que ante o Adamastor se encolhe e treme.

Altura é de escrever-se outra “Mensagem”
que refundindo o que o poeta diz
releve os novos rumos do país!

João de Castro Nunes