domingo, 22 de janeiro de 2012

Despojado

Quando chegou a sua ocasião
de morto ser levado a sepultar,
João Paulo Segundo quis ficar
sob terra sem qualquer ostentação.

Não quis nenhum marmóreo mausoléu
com pontifícios títulos gravado,
pois sempre fez tenção de despojado
perante Deus se apresentar no céu.

Como fizera com a sua mãe,
em cuja pedra apenas mandou pôr
EM PAZ DESCANSE, sem qualquer lavor,

determinou que sobre a sua lousa
pusessem só, de forma a ler-se bem,
JOÃO PAULO II AQUI REPOUSA.

João de Castro Nunes

Nuvens de tristeza

Hoje, não sei porquê, sinto-me triste!
tudo é sombrio e opaco à minha volta,
sinto dentro de mim certa revolta
que não sei bem dizer em que consiste!

É como um desconforto, um mal-estar
que não sei definir exactamente,
uma vontade imensa de deitar
as culpas deste estado a toda a gente.

Sinto-me triste, umbroso, inconsolável,
incapaz de achar graça a coisa alguma,
envolto num espesso véu de bruma.

Porque será?... talvez o mais provável,
ó meu amor, será a tua ausência
que me roubou o gosto da existência!

João de Castro Nunes

Irreparável dano

De cada vez que um filho me nascia
mais uma rosa em meu jardim brotava,
o coração me enchendo de alegria
que pela casa toda se espalhava!

Por oito vezes isso sucedeu,
por tantas outras uma nova estrela
no céu subitamente se acendeu,
parando toda a gente para vê-la.

Certo dia, porém, por um azar
da natureza humana exacerbado
por inaudita reacção sem par,

a primeira das rosas se exauriu
e simultaneamente, por seu lado,
no firmamento um astro se extinguiu!

João de Castro Nunes

Sinfonia sideral

Os astros, Einstein, quando tu nasceste,
romperam numa augusta sinfonia
que ressoou na abóbada celeste
com sobrenatural categoria.

Sob a batuta pessoal de Deus,
para escutá-la, deve ter parado
todo o universo, incluindo os fariseus
que se escusaram a embalar teu berço.

Estava escrito nos anais do céu
que Deus te iria dar o privilégio
de ver como é que tudo aconteceu

na condição, porém, de em tua mente
o segredo guardares piamente
sob pena de incorrer em sacrilégio!

João de Castro Nunes

Sinceridade

Nem toda a gente tem capacidade
para entender a alma dos poetas,
como nem todos têm a faculdade
de interpretar a fala dos profetas.

Tudo é questão de sensibilidade
e sobretudo de intenções correctas
na presunção de ser a divindade
que inspira o vate em transmissões directas.

Que o digam Dante, Milton e Antero,
Luís Vaz de Camões e Pascoais
e tantos outros vates imortais.

Eu próprio o digo, para ser sincero,
sem me considerar, de qualquer modo,
mais que barro da terra, vaza e lodo!

João de Castro Nunes

Sinal de ti

Já não há brasas na lareira antiga,
as salas estão só a meia luz,
nada me apraz e nada me seduz,
já não tem nada a vida que me diga!

De quando em vez assomo-me à janela
e olhando para o céu com amargura
eu tento divisar tua figura
em qualquer nuvem, em qualquer estrela.

Que desespero o meu por só poder
ouvir a tua voz, ver teu sorriso,
quando chegar o dia do Juízo!

Até lá, meu amor, na escuridão
que se apossou da nossa habitação,
dá-me um sinal de ti… se puder ser!

João de Castro Nunes

Simbologias

O símbolo é a forma de expressão
do que não é palpável ou carece
de termo apropriado ou locução
para expressar o que se desconhece.

Por convenção, situa-se à direita
auguralmente o que nos traz a sorte,
enquanto que à esquerda nos espreita
a ave agoirenta que prediz a morte.

Perderam-se e ganharam-se combates
com base em tais conceitos que em verdade
nada mais são que puros disparates.

Porque há-de o azul simbolizar nobreza
e o verde ora esperança na incerteza
ora por vezes… sinistralidade?!

João de Castro Nunes