Ao Prof. Fausto Pontes
O que entre nós achei de similar,
ilustre Professor e bom Poeta,
foi sua forma autêntica de estar,
que nenhum baixo sentimento afecta.
Ambos prestamos culto, além de Deus,
ao clã familiar que nos tocou,
odiando por igual os fariseus
de que ninguém na vida se livrou.
O belo e o bom pusemos sempre acima
de qualquer outro humano predicado
merecedor também da nossa estima.
Às consortes erguemos um altar
de linho revestido e de brocado,
a cujos pés gostamos de rezar!
João de Castro Nunes
domingo, 22 de janeiro de 2012
Similitude
Como qualquer romano seu coevo,
Cícero, o escritor da antiguidade
mais afamado, eu quase que me atrevo,
no que respeita à imortalidade,
a dizer que não cria na existência
da vida após a morte, muito embora
ambicionasse, à margem da evidência,
para consolo seu, que assim não fora.
É, pelo menos o que faz pensar
a epístola sentida que escreveu
quando a filha Tulíola morreu.
Essa necessidade de voltar
a vê-la algures, em qualquer lugar,
também um dia a mim me aconteceu!
João de Castro Nunes
Cícero, o escritor da antiguidade
mais afamado, eu quase que me atrevo,
no que respeita à imortalidade,
a dizer que não cria na existência
da vida após a morte, muito embora
ambicionasse, à margem da evidência,
para consolo seu, que assim não fora.
É, pelo menos o que faz pensar
a epístola sentida que escreveu
quando a filha Tulíola morreu.
Essa necessidade de voltar
a vê-la algures, em qualquer lugar,
também um dia a mim me aconteceu!
João de Castro Nunes
Ressonâncias simbolistas
Os meus brasões rasguei, meus pergaminhos,
vendi a minha casa, o meu solar,
deixei-me de armaduras e de arminhos,
passando a ser um cidadão vulgar.
Os pés feri nas pedras dos caminhos
e calejei as mãos a trabalhar,
dei conta de sorrisos escarninhos
por já não ter cartão de titular.
Pura ilusão! agora mais que nunca,
ainda que a viver numa espelunca,
arrasto nos salões mantos de conde.
Em paz com Deus, em paz com toda a gente,
sinto-me rei na pele de regente
não sei concretamente… quando ou onde!
João de Castro Nunes
vendi a minha casa, o meu solar,
deixei-me de armaduras e de arminhos,
passando a ser um cidadão vulgar.
Os pés feri nas pedras dos caminhos
e calejei as mãos a trabalhar,
dei conta de sorrisos escarninhos
por já não ter cartão de titular.
Pura ilusão! agora mais que nunca,
ainda que a viver numa espelunca,
arrasto nos salões mantos de conde.
Em paz com Deus, em paz com toda a gente,
sinto-me rei na pele de regente
não sei concretamente… quando ou onde!
João de Castro Nunes
"Sicut aquila volans"
Quisera ser uma águia soberana
de asas possantes, fortes, resistentes,
para voar por cima das vertentes
em que rasteja a criatura humana!
Quisera ser uma águia sobranceira
de acutilante e penetrante olhar
para do céu diáfano enxergar
na sua vera essência a terra inteira!
Quisera, Pascoaes, ter o teu génio,
o teu talento, ó “Águia do Marão”,
por obra de metáfora ou convénio!
Quisera, como tu, perto dos astros
voar, pensar, sem nunca estar de rastros
ante o poder… em plena solidão!
João de Castro Nunes
de asas possantes, fortes, resistentes,
para voar por cima das vertentes
em que rasteja a criatura humana!
Quisera ser uma águia sobranceira
de acutilante e penetrante olhar
para do céu diáfano enxergar
na sua vera essência a terra inteira!
Quisera, Pascoaes, ter o teu génio,
o teu talento, ó “Águia do Marão”,
por obra de metáfora ou convénio!
Quisera, como tu, perto dos astros
voar, pensar, sem nunca estar de rastros
ante o poder… em plena solidão!
João de Castro Nunes
"O sétimo selo"
Para Ingmar Bergman
no dia do seu falecimento.
Sentámo-nos um dia frente a frente
perante um tabuleiro de xadrez,
olhos nos olhos, confiadamente,
a Morte e eu, jogando vez à vez.
De lance em lance, sem pestanejar,
eu disputava à Morte, em paridade,
o compromisso de corroborar
as minhas pretensões à eternidade.
Da minha parte eu me comprometia
a legar-lhe o meu ser acompanhado
de tudo… quanto a ele pertencia.
Foi jogo limpo, sem ardis, leal:
depois de horas a fio disputado,
dei xeque-mate à Morte… no final!
João de Castro Nunes
30 de Julho de 2007.
.
no dia do seu falecimento.
Sentámo-nos um dia frente a frente
perante um tabuleiro de xadrez,
olhos nos olhos, confiadamente,
a Morte e eu, jogando vez à vez.
De lance em lance, sem pestanejar,
eu disputava à Morte, em paridade,
o compromisso de corroborar
as minhas pretensões à eternidade.
Da minha parte eu me comprometia
a legar-lhe o meu ser acompanhado
de tudo… quanto a ele pertencia.
Foi jogo limpo, sem ardis, leal:
depois de horas a fio disputado,
dei xeque-mate à Morte… no final!
João de Castro Nunes
30 de Julho de 2007.
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Sapatinhos brancos
Em vez de pés descalços ou tamancos
como ainda se vê no interior
todas as criancinhas , sem favor,
deviam ter seus sapatinhos brancos.
Deviam ter lacinhos na cabeça
como as meninas usam na cidade
e vestidinhos em conformidade
embelezando a vida que começa.
Deviam todas ter, sem excepção,
meias e luvas brancas destinadas
ao acto da primeira comunhão.
Como em qualquer real democracia,
que ao menos possam figurar calçadas
de sapatinhos brancos... nesse dia!
João de Castro Nunes
como ainda se vê no interior
todas as criancinhas , sem favor,
deviam ter seus sapatinhos brancos.
Deviam ter lacinhos na cabeça
como as meninas usam na cidade
e vestidinhos em conformidade
embelezando a vida que começa.
Deviam todas ter, sem excepção,
meias e luvas brancas destinadas
ao acto da primeira comunhão.
Como em qualquer real democracia,
que ao menos possam figurar calçadas
de sapatinhos brancos... nesse dia!
João de Castro Nunes
Silencioso heroísmo
Ser o melhor na bola, correr mais,
deixando todos para trás nas pistas,
cartografar estrelas nunca vistas,
girando nos espaços siderais;
conduzir automóveis, aviões,
cada vez mais velozes e potentes,
investigar por dentro as nossas mentes
e vasculhar os nossos corações;
são desde logo acções que nas histórias
da humanidade irão deixar memórias
por sua incontestável importância,
enquanto que, em pesquisa recatada,
pouco ou nada se diz da relevância
da luta contra o cancro entabulada!
João de Castro Nunes
deixando todos para trás nas pistas,
cartografar estrelas nunca vistas,
girando nos espaços siderais;
conduzir automóveis, aviões,
cada vez mais velozes e potentes,
investigar por dentro as nossas mentes
e vasculhar os nossos corações;
são desde logo acções que nas histórias
da humanidade irão deixar memórias
por sua incontestável importância,
enquanto que, em pesquisa recatada,
pouco ou nada se diz da relevância
da luta contra o cancro entabulada!
João de Castro Nunes
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