sábado, 21 de janeiro de 2012

Hapy end

Quando a morte vier buscar-me a casa
sem me avisar antecipadamente,
vou recebê-la com um golpe de asa
de quem não teme vê-la pela frente.

Não a procuro nem tão-pouco a chamo,
mas quando ela vier será bem-vinda,
achando à porta o respectivo ramo
se porventura a não conheça ainda.

Depois irei, na sua companhia,
por esse espaço fora, de mão dada,
na direcção do reino da alegria.

Só junto àquela que me precedeu
e em longos anos tanto amor me deu
acabará por fim minha jornada!

João de Castro Nunes

Inalterável

Há-de ofuscar-se o ouro dos altares
das antigas igrejas portuguesas
e apagar-se nas capitulares
dos livros-de-horas dados às princesas;

há-de esvair-se em todos os solares
o ouro das baixelas sobre as mesas
e, bem assim, o ouro dos colares
que dão realce ao busto das duquesas;

há-de o ouro extinguir-se com os anos
nas coroas reais dos soberanos,
cetros, anéis, brasões e diademas;

só o ouro sem par dos teus cabelos,
que por motivo algum posso esquecê-los,
eterno viverá… nos meus poemas!

João e Castro Nunes

Germanicus

(Ode romana)

Cremado após a morte nas jornadas
contra os povos de leste comandando
as legiões romanas colocadas
com pérfida intenção sob o seu mando,

Germanicus, a sombra de Tibério,
o ídolo do povo que o amava,
o esperançoso salvador do Império,
à capital, em cinzas, retornava.

Trazia a urnazinha no regaço
sua jovem viúva desde a Apúlia
entre soldados desfilando a passo.

Foi um delírio em Roma a sua entrada,
pois era a flor da dinastia Júlia
que lhe era devolvida… encinerada!

João de Castro Nunes

Feliz envelhecer

Apesar dos achaques inerentes
aos anos de uma vida prolongada,
ainda hoje passo dias, entrementes,
sem desde logo me queixar de nada!

Ainda aguardo o sol cada manhã
e vejo à noite o brilho das estrelas
com mente lúcida, inspirada e sã,
isenta de vesânicas mazelas.

Componho noite adentro os meus poemas,
horas a fio, trabalhando o verso
como se acaso lapidasse gemas.

A velhice assumindo de bom-grado,
com meus extintos ídolos converso,
feliz de um grande amor Deus me haver dado!

João de Castro Nunes

Meus favoritos

Para falar de mim, dos meus poemas,
me basto eu mesmo: mais do que ninguém
me conheço melhor; como se alguém
tanto a par estivesse dos meus temas.

Gosto, em meus versos, de falar com Deus
questionando… a sua natureza:
por que motivo nunca sai dos céus,
fazendo-nos supor que nos despreza?

Gosto, logo a seguir, de recordar
a beleza daquela que eu amei
perdidamente… e continuo a amar

nos filhos que me deu, copiosa grei
cujas feições a sua reproduzem
e sem cessar a ela me conduzem!

João de Castro Nunes

De palavras se faz a poesia

(Ode drumondiana)

Por ordem alfabética as palavras
todas se encontram no vocabulário
onde o poeta, em seu imaginário,
suas colheitas faz e suas lavras.

Nota de pauta ou musical fonema
que dos demais se constitui refém,
nenhuma delas, por si só, contém
o embrionário lastro do poema.

Juntando-as sob as regras da harmonia,
faz delas o poeta a sinfonia
das suas mais profundas emoções.

Apenas de vocábulos formada,
a poesia, nestas condições,
é flor rompendo o alcatrão da estrada!

João de Castro Nunes

D. Leonor de Bragança

Posta à veneração de todo o mundo
podia estar agora nos altares
a consorte de D. João Segundo,
ornada de virtudes singulares.

Por um crime de amor em que caiu
o seu régio marido, ela, ao sabê-lo,
com tanta impiedade reagiu
que até na morte se escusou a vê-lo.

De nada lhe valeu ser fundadora
de cem Misericórdias portuguesas
instituídas pelo país fora…

Tão dura e crua foi de coração
que a Santa Sé, de resto sem surpresas,
lhe negou sempre… a canonização!

João de Castro Nunes