sábado, 21 de janeiro de 2012

Credencial

Que doce é a maneira de falar
a língua portuguesa um brasileiro:
parece até que foi no açucareiro
que esteve durante anos a dessar.

O gosto que ela tem a mar salgado
foi-se perdendo aos poucos na pronúncia
do povo brasileira sem renúncia
ao que ela tem de mais apropriado.

Na voz das brasileiras sobretudo
é que tem mais doçura, mais aroma
o nosso ancestralíssimo idioma.

Glória, pois, à fala brasileira
pela qual a nação, mais do que tudo,
se afirma sem carência de bandeira!

João de Castro Nunes

Quimeras... em directo

Ouvir falar estrelas entre si
talvez um dia venha a ser possível:
é só questão de se atingir o nível
que nos permita circular ali.

Pelo caminho que a tecnologia
a passos de gigante vai trilhando,
é de prever, não se sabendo quando,
que isso se dê mais dia menos dia.

Quem sabe até se com auscultadores
não poderemos conversar com Deus
sem recorrer aos seus embaixadores?!

Tecnologicamente… chegaremos
todos à fala, como filhos seus,
incluindo os vermes de que descendemos.

João de Castro Nunes

Quartos pegados

Connosco vive a dor em paridade
com o prazer, em quartos separados,
mas de tal ordem juntos e chegados
que ouvir-se podem com facilidade.

Revezam-se no sono, de maneira
que, enquanto um dorme, o outro em seu lugar
livre de mãos está… para actuar
a seu talante e sem qualquer barreira.

Neste jogo de forças, o prazer
leva sempre a pior perante a dor
que tudo tem, de resto, a seu favor.

Pondo em confronto o deve e o e haver,
são mais as horas que, no quarto ao lado,
dorme o prazer… de sono tão pesado!

João de Castro Nunes

Quando vieres

Quando vieres, morte, não me assustes,
abeira-te de mim suavemente,
com naturalidade e de repente
dá-me a estocada sem quaisquer embustes!

Não permitas sequer que me contorça
ou faça esgar algum de desagrado
ao ver-te junto a mim, posta ao meu lado,
pois o que tem de ser tem muita força!

Há muito que me encontro prevenido
de que, pela razão de de haver nascido,
te devo irrecusável sujeição.

Exerce, pois, a tua obrigação,
mas fá-lo de maneira que aconteça
o menos que é forçoso que eu padeça!

João de Castro Nunes

O aroma dos teus passos

Pelas tuas feições, pelos teus traços.
fisicamente sinto-te presente
a envolver-me todo nos teus braços
como era teu costume antigamente.

Te reconheço até pelos teus passos
pisando à minha volta, ainda quente,
o chão familiar, cujos espaços
te sinto percorrer suavemente.

Persiste o teu aroma singular,
num misto de beleza e santidade,
a perfumar, amor, o nosso lar.

Estás presente em tudo que me cerca,
amaciando a infelicidade
da tua amarga e prematura perca!

João de Castro Nunes

Que saudades, amor, tenho de ti!

Que saudades, amor, tenho de ti,
da tua doce voz, do teu sorriso,
do teu formoso rosto, do teu riso
que nunca mais, amor, eu esqueci!

As horas passo, amor, a recordar-te,
a recordar a tua companhia
sem deixar um momento de evocar-te
na minha arrebatada poesia.

Nunca mulher alguma foi amada
tão loucamente como tu, amor,
com tanta intensidade, tanto ardor!

Sem caminhar contigo de mão dada
devido à tua prolongada ausência
como hei-de suportar esta existência!

João de Castro Nunes

Rainhas para sempre!

Em Monforte de Lemos, na Galiza,
solar feudal dos Castros de algum dia,
corta-se à faca um ar de fidalguia
que nos perturba e nos sensibiliza.

De lá saíram duas nobres damas,
irmãs por certo, até na formosura,
para em determinada conjuntura
pôrem de reis os corações em chamas.

Foi uma Inês de Castro, que ocupou
o trono português depois de morta
como Camões em verso eternizou.

Joana foi a outra, por seu lado,
no reino de Castela; não importa
as horas que durou o seu reinado!

João de Castro Nunes