sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Tenho uma santa no céu

Tenho uma santa no céu
junto da Virgem Maria
a quem rezo todo o dia
desde que ela faleceu.

Rezo às duas por igual
com a mesma devoção,
não existindo razão
para trato desigual.

Se uma é Santa de raiz
por ser Mãe de Jesus Cristo,
o que ninguém contradiz,

a outra o céu conquistou,
a certeza tenho disto,
pelo amor que Lhe votou!

João de Castro Nunes

A minha Nossa Senhora

Tem cada qual, a par da Verdadeira,
uma Nossa Senhora pessoal:
para uns é simplesmente de madeira,
para outros não tem forma corporal.

A minha, que eu amei a vida inteira,
era de carne e osso, ao natural,
mas além disso, de qualquer maneira,
em santidade não tivera igual.

Embora ainda por canonizar,
dispõe já no meu peito de um altar,
onde lhe rezo permanentemente.

Por outro lado, ainda que no céu,
para onde foi viver quando morreu,
estou a vê-la sempre à minha frente!

João de Castro Nunes

Canteiro da palavra

Com toda a sua garra de escritor
modelando a palavra à marretada
e golpes de cinzel, feito escultor,
os seus contrários reduzindo a nada,

Aquilino Ribeiro demonstrou
nas suas obras de investigação,
que em número avultado efectuou,
que as letras são o sal da erudição.

O que nas teses em geral não passa
de dados de uma insípida leitura,
que será tudo menos atraente,

em Aquilino tem montões de graça,
o que faz dele redobradamente
um grande vulto da literatura!

João de Castro Nunes

O culto da Mulher

Autêntico ou não mais que literário
nunca deixaste de cantar o amor,
Luís Vaz de Camões, cujo ideário
não teve quebra alguma em seu ardor!

Talvez tivesse sido imaginário
o nome de Natércia ou Lianor,
mas não deixou de ser extraordinário
o que em verso escreveste a seu favor.

Nenhum poeta teu contemporâneo,
itálico, espanhol ou conterrâneo
te superou nem te igualou sequer.

Pode mesmo dizer-se que o teu génio,
independentemente do milénio,
formalizou o culto da Mulher!

João de Castro Nunes

"Orfeu resignado" 43

Eu creio em Deus, na vida além da morte,
não tanto por argutas teorias,
mas por amor do modo que tu crias
compartilhando a tua fé tão forte.

Porém, se acaso assim não suceder
e vão ter sido em Deus acreditar
por com a morte a vida terminar,
valeu a pena mesmo assim viver.

É que seguramente, na verdade,
nada é melhor do que a felicidade,
seja onde for, com a pessoa amada.

Se após a morte não houver mais nada,
bastou-me ser feliz contigo aqui,
pois tive o céu na terra ao pé de ti!

João de Castro Nunes

"Orfeu resignado" 31

Pelo amor que me deste e que eu te dei,
amor sem par, sem peso nem medida,
marcado com punção de ouro de lei,
foi como um sonho, amor, a nossa vida!

Foram diversos anos que passaram
mais rápidos acaso do que a luz,
seis décadas que nos transfiguraram
em cireneus levando uma só cruz.

O sonho que vivemos não findou:
com algum exagero ou fantasia
direi que só agora começou.

Há-de no céu continuar um dia
quando o Senhor, que nos desapartou,
quiser que eu vá fazer-te companhia!

João de Castro Nunes

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Beijo o teu chão

Beijo o teu solo, terra de Arganil,
onde jaz sepultada a filha minha,
a sempre recordada Mariinha,
criança já de porte senhoril!

Beijo o teu solo para mim sagrado
por lá ter decorrido o meu amor
durante o seu período melhor
por Deus em oito filhos alegrado!

Beijo o teu solo porque simplesmente
não tendo embora lá minhas raízes
ali passei meus dias mais felizes!

Beijo o teu chão que não me sai da mente
porquanto a par da filha e da consorte
lá penso repousar depois da morte!

João de Castro Nunes