quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sir Thomas More

Sir Thomas More, admiro-vos acima
do próprio Erasmo, o emérito humanista
de grande espírito universalista,
por quem professo uma profunda estima.

Perante a sua eterna ambiguidade
para manter a paz a todo o preço
entre os dois campos, sem nenhum sucesso,
prefiro a vossa... verticalidade.

Fiel à vossa inabalável Fé
sem pôr em causa, como se provou,
a lealdade ao Rei que a renegou,

nada vos fez vergar, morrendo em pé
e de joelhos só... para o machado
mandar a Deus vossa alma sem pecado!

João de Castro Nunes

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

À mesa com a Poesia

Quem quiser ter lugr sentado à mesa
dessa entidade que é a Poesia
deve renunciar a qulquer via
que não conduza ao reino da Beleza.

Terá de converter-se em paladino
de tudo quanto é nobre na existência,
à santidade dando preferência
sem discriminação de figurino.

Não pode alimentar maus sentimentos,
o coração fechar à piedade
ou ter perniciosos pensamentos.

A Poesia não se dá no lodo
da mente humana, pois de qualquer modo
é sopro que provém da divindade!

João de Castro Nunes

Sobre a Saudade

(Em competição com Pablo Neruda)

Saudade não se aprende nem se ensina:
não há livro nenhum a seu respeito
que peremptoriamente nos defina
o sentido real deste conceito.

É sentimento que ninguém domina
quando se instala e nos invade o peito,
sem que haja dose alguma de morfina
capaz de minorar o seu efeito.

Só sabe o que é saudade quem um dia
sofreu dessa moléstia para a qual
vacina não existe ou terapia.

Em todo o caso, nada há de pior
que nunca ter sofrido dessa dor
que tem seu epicentro em Portugal!

João de Castro Nunes

12 de Março

Somos o fruto de uma geração
que não cuidou de nós como devia
quer no que diz respeito à profissão
quer aos princípios da cidadania!

Deixaram-nos à rasca no que toca
aos nossos meios de sobrevivência:
além de nos faltar pão para a boca,
de mendigar estamos na iminência!

Importa questionar, desde raiz,
esta governação que sem critério
levou à derrocada este país!

Estamos fartos deste despautério:
venha um sistema que, pelo seguro,
nos deixe visionar... melhor futuro!

João de Castro Nunes

Dança comigo!

(Sob a inspiração de Ingmar Bergman)

Dança comigo adequadamente,
"Senhora D. Morte" a quem não temo,
dança comigo ante o Juiz Supremo,
como é costume teu com toda a gente!

Dança comigo, juntos, de mão dada,
um tango, um minuete de salão,
à tua escolha, à tua discrição,
uma valsa talvez apropriada!

Não deixarei de alegre me sentir
por farto estando há muito de existir
altura ser de ir ter com meu amor.

Dança comigo, como o uso manda,
mesmo que seja, à falta de melhor,
uma áulica e sueca sarabanda!

João de Castro Nunes

Apelo irresistível

Antes de tudo o mais, antes do nada,
em todos os espaços do universo,
havia tão-somente uma chamada,
um forte anseio de embalar um berço!

Deus fez o jeito e tudo começou
num arraial de fogo de artifício:
em sinfonia a música arrancou,
fazendo a poesia... o seu ofício.

Não há decreto governamental
nem teoremas inquestionáveis
que nos permitam deduções fiáveis.

Dê-se voz aos Poetas, em geral,
pois Deus lhes terá dado a intuição
que é, desde logo, a chave do portão!

João de Castro Nunes

A minha alma gentil

Camões cantou, sem nomear alguém,
a alma gentil, a criatura amada,
que Deus, antes do tempo, houve por bem
chamar à sua angélica morada.

Quem fosse a alma gentil do grande vate
só ele com verdade o saberia,
podendo acontecer que até se trate
de literária e pura fantasia.

Como é diverso o caso que me afecta,
só que eu não tenho o estro do Poeta
para cantar quem tanto me encantou!

A minha alma gentil foi tão real
e personalizada ou tal e qual
os oito filhos que de si gerou!

João de Castro Nunes