segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O nosso Shangri-lá

(O céu na terra)

Se não passar de pura fantasia
o reino ou paraíso prometido
após a morte como referia
o mais antigo texto conhecido;

se tudo não passar de uma utopia
como outras tantas, sem qualquer sentido,
produto de ancestral teologia
de livro em livro santo transmitido;

se tal promessa for uma mentira,
embora piedosa, arquitectada
para que a vida não se esvaia em nada;

que importa, amor! que não exista céu
se em tantos anos, que ninguém nos tira,
a gente já na terra o conheceu?!

João de Castro Nunes

A santidade

Para se ter acesso à santidade,
sem precisão de ser reconhecida,
basta que se conforme a nossa vida
aos preceitos morais da humanidade.

Não é questão de fé, por mais que que seja,
mas de inteireza, o que não quer dizer
que excelente não seja pertencer
a uma qualquer acreditada igreja.

Não é doutrina minha; há muita gente
de autorizada e esclarecida mente
que embarca nesta mesma concepção.

Fundamental é ter-se um coração
radicalmente bom, temente a Deus
que tanto vive em nós como nos céus!

João de Castro Nunes

A cepa do sonho

Terminada a vindima fica a cepa,
promessa de vindoura produção,
por cujo interior a seiva trepa
para florir na próxima estação.

Do vinho não bebido fica um resto
que misturado ao da colheita nova
lhe dá, como aliás é manifesto,
mais doce paladar... quando se prova.

Faz-me isto vir à mente os sonhos nossos,
de cujos estilhaços e destroços
outros surgindo vão que os regeneram.

O mal é quando a cepa chega ao fim
e os sonhos em poeira degeneram,
deixando de haver rosas no jardim!

João de Castro Nunes

A minha deusa-mãe

Tenho uma deusa-mãe de terracota,
pela mão de Picasso rubricada,
que apesar de não ser de era remota
não trocaria, amigos meus, por nada!

Valor arqueológico não tem,
é coisa que está fora de questão,
mas da sua beleza estou refém,
como a jóia da minha colecção.

Por dinheiro nenhum me desfazia
da sua posse, pois a considero
seguramente de maior valia

que todas quantas, por quaisquer motivos,
se encontram nos museus ou nos arquivos
do mundo inteiro: essa vos assevero!

João de Castro Nunes

A magia dos sons

A música não sei por que razão
dos astros me aproxima, das estrelas,
como se acaso eu fosse uma porção,
um simples grão de pó de qualquer delas.

Sinto-me leve quando ouço tocar
a sexta, a nona, a quinta sinfonia
do grande génio que me faz sonhar
com deuses em serena companhia.

É a mesma comoção que eu sinto lendo
dos magnos vatesas composições,
desde Bocage, Antero até Camões.

Sem pretendê-las igualar, entendo
que a poesia deve possuir
da música o seu mágico... elixir!

João de Casro Nunes

A mola que se parte

(Ode anteriana)

Sair da vida voluntariamente
à luz de certas gregas teorias
apelidades de filosofias
era acto de coragem consciente.

Fizeram-no diversas personagens
que suscitaram grande admiração
buscando a morte pela própria mão
sob a razão de utópicas miragens.

Era um direito a poucos reservado
quando estivesse em causa o pundonor
do cidadão sem sombra de pecado.

Não foi de Antero o caso, é de supor,
pois o seu suicídio acidental
foi pura reacção... sentimental!

João de Castro Nunes

domingo, 1 de janeiro de 2012

Poeta me confesso

A minha poesia não são versos;
pelo contrário: é poesia pura
em verso construída com diversos
ingredientes da literatura.

É música por vezes tão-somente,
quase incorpórea, mera bagatela,
como rumor de brisa equivalente
ao fugaz som do passo da gazela.

Trabalho o verso como quem lapida
um diamante e só me sai da mão
quando não posso já fazer mais nada.

Quanto à matéria, ou seja, o conteúdo,
dou preferência às coisas da emoção,
embora nela possa... haver de tudo!

João de Castro Nunes