sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Suprema decisão

O Duque de Gandía, quando viu
a sua Imperatriz amortalhada,
sentiu, caindo em si, já não ser nada
aquela a quem tão próximo serviu.

De tão formosa que ela foi, de facto,
e tão distinta, poderosa, agora
não era mais, a Altíssima Senhora,
que um fétido cadáver putrefacto.

D. Francisco de Borja, o camareiro,
com sua esposa toma a decisão
de cada qual entrar para um mosteiro.

Às pompas cortesãs dizendo adeus,
a mais ninguém que morra servirão:
"Daqui para diante... apenas Deus"!

João de Castro Nunes

Rainha... é rainha!

Ao dar à luz na corte castelhana,
D Isabel, Imperatriz de Espanha,
mulher de Carlos Quinto, diz-de dela
que teve uma atitude assaz estranha.

A fim de que ninguém lhe visse o rosto
angustiado, tenso e ofegante
e pela acção do parto descomposto,
mandou que lho tapassem nesse instante.

Ao chegar o momento decisivo
em que a parteira, como lenitivo,
lhe disse que era bom que ela gritasse,

a Imperatriz, sem descobrir a face,
lhe retorquiu que, mesmo quando aflita,
uma Rainha morre, mas não grita!

João de Castro Nunes

Isabel de Portugal

No Prado, em plena via Castelhana,
encontra-se, em itálica pintura,
famosa pela sua formosura
de toda a Espanha a lusa soberana.

O que, contrariamente à fúria hispana,
logo nos prende, ao ver sua figura,
é aquela repousada compostura
peculiar à gente lusitana.

Entre milhentos rostos de princesas
da mais alta linhagem europeia,
outra nenhuma tanto nos enleia.

Estupefacto quando a conheceu,
ante ela Carlos Quinto se rendeu
e acima a pôs de todas as Altezas!

João de Castro Nunes

Gostosa dor

Um fogo interior, vivo e ardente,
chamado amor, que escalda mas não dói,
um fogo que queimando não destrói,
tem-me feito sofrer... gostosamente.

Camoneadamente me expressando,
apraz-me registar o contra-senso
que em mim se dá também, segundo penso,
de sofrendo no fundo estar gostando.

Por isso, meu amor, não faças caso
de ser a minha dor tanto maior
quanto maior o amor em que me abraso.

Se por amor sofrer nunca é demais,
deixa-me então penar cada vez mais,
convertendo em prazer a minha dor!

João de Castro Nunes

Amar... por amar

O puro amor que Te dedico e tenho
sem nada em troca Te pedir, Senhor!
posso jurar-Te pelo santo lenho
que na verdade é tão-somente amor!

Quando Te rezo à hora de deitar
e tendo ocasião durante o dia
é como se estivesse, ante o altar,
a conversar contigo em poesia.

Enquanto não T'o digo frente a frente,
olhos nos olhos, vendo a tua cara,
permite que entretanto, embora ausente,

quebrando a condição que nos separa,
T'o vá dizendo antecipadamente
por esta forma para mim tão cara!

João de Castro Nunes

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Permanência

Partiste, amor, mas não te foste embora,
permanecendo sempre ao pé de mim;
sempre senti, por esse mundo fora,
teus passos de veludo e de cetim!

Sempre comigo te sentaste à mesa
para me acompanhar nas refeições,
compartilhando a meias a despesa,
nunca questão fazendo dos tostões!

No nosso leito de perfil antigo
nunca deixaste de dormir comigo
um sono repousante em paz com Deus!

Nem sempre um lenço, amor, dizendo adeus
implica a ideia de separação
nos domínios que são do coração!

João de Castro Nunes

A jóia do carrasco

Senhora dona morte, quando for
a altura de eu subir ao cadafalso
de tronco nu, sem túnica, descalço,
dá-me um golpe certeiro com vigor!

Da minha parte, em reciprocidade,
terei numa das mãos para te dar
pelo serviço que me irás prestar
uma jóia de grande qualidade.

É peça muito antiga que eu herdei
dos meus antepassados e guardei
para este fim, como é da tradição.

Apenas tens de proceder na altura
com muita agilidade e prontidão
por forma a eu tombar com compostura!

João de Castro Nunes