quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sonata azul

Ouvidos ler ou lidos no papel,
os meus poemas na realidade
têm a cor, têm a tonalidade
dos olhos de David, rei de Israel.

Têm da turquesa a cor imaculada
peculiar da classe da nobreza,
a cor por excelencia que se preza
de ser da natureza a mais cotada.

Tanto na forma como no sentido,
passando pelo seu vocabulário,
dariam para forro de sacrário.

São castos, meu amor, como os teus olhos
de um verde-azul, suave, enternecido
capaz de em rosas transformar abrolhos!

João de Castro Nunes

Falar com rosas

Falar com rosas é falar com Deus
que nelas pôs a sua complacência,
sem precisão de O procurar nos céus
onde Ele tem a sua residência.

Nelas eu vejo a sua natureza
em toda a sua extrema perfeição,
deixando-me vencer pela certeza
de nelas eu ter Deus à minha mão.

Se Deus tem cheiro, como às vezes penso,
o mesmo deve ser que as rosas deitam,
mais apurado embora ou mais intenso.

Quando com Deus desejo conversar,
sirvo-me delas, que em botões enfeitam
as jarras "Vista Alegre" do meu lar!

João de Castro Nunes

Carta aos meus filhos

Prestes a ir-me embora, filhos meus,
para encontrar-me com a vossa Mãe
que foi à minha frente ter com Deus,
isto vos digo para vosso bem:

amai tudo o que é bom na natureza,
tudo o que tem valor e qualidade,
nunca afirmando terdes a certeza
pois que ninguém é dono da verdade;

vossos pontos de vista defendei
com vigor e coragem, muito embora
sendo capazes de dizer: "Não sei!";

mas sobretudo, pela vida fora,
nunca façais papel de delatores
pelo que toca aos livre-pensadores!

João de Castro Nunes

LIBERDADE

Eu quero a liberdade, a verdadeira,
escrita com maiúscula na base
dos monumentos sem nenhuma frase
que a desvirtue por qualquer maneira.

Eu quer a liberdade na soleira
da minha porta para quando entrar
saber que ela se encontra no meu lar
sem trela, sem açaimo e sem coleira.

Eu quero a liberdade como Deus
ao ser humano a deu quando o criou
para O amar na vastidão dos céus.

Eu quero a liberdade sem mais nada
exactamente assim como brotou
para entre todos nós ser partilhada!

João de Castro Nunes

Amor sacramentado

Amar assim como eu te amei a ti,
não há na história antiga ou actual,
não houve, não existe, nunca vi
em toda a minha vida um caso igual.

A maioria ou são imaginários,
produto de exaltada fantasia,
ou não passam de mitos literários
que já não têm lugar nos nossos dias.

O meu amor por ti, sacramentado,
feliz, constante, firme como a hera,
foi tudo menos obra de quimera.

Por Deus seguramente abençoado,
nos filhos que nos deu vai perdurar,
não mais se desfazendo o nosso lar!

João de Castro Nunes

"A que vens, pá?"

Antes da Páscoa, estavam reunidos
à volta de Jesus, no meio deles,
alguns dos seus discípulos, aqueles
mais chegados a si, desprevenidos.

Eis quando se aproxima, acompanhado
de um bando de soldados, sorrateiro,
Judas Iscariotes, disfarçado
de inofensivo e tímido cordeiro.

Dirigindo-se ao Mestre, que o aguardava,
a face lhe beijou, conforme estava
determinado pelos fariseus.

Jesus, os olhos levantando aos céus,
outra coisa não fez do que dizer:
"A que vens, pá?!" - O resto está-se a ver.

João de Castro Nunes

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Amor integral

O meu amor não é um amor qualquer,
como ao longo dos tempos foi cantado
pelos grandes poetas do passado,
visando o rosto apenas da mulher.

Também será, sem dúvida nenhuma,
como é perfeitamente natural:
amor que envelhecendo o visual
aos poucos vai morrendo como espuma.

O meu amor, não sei como dizê-lo,
além de intemporal é, mais que tudo,
incandescente como o sete-estrelo.

É integral e envolvente, a par
do amor dos filhos, tendo por escudo
as ancestrais paredes do meu lar!

João de Castro Nunes